sexta-feira, 29 de julho de 2011

Liturgia - 18º Domingo do Tempo Comum


“Meu Deus, vinde libertar-me, apressai-vos, Senhor, em socorrer-me. Vós sois o meu socorro e o meu libertador, Senhor, não tardeis mais.” (cf. Sl 69,2.6).

Meus irmãos,
Jesus nos convida hoje a repartir o pão da palavra e o pão do alimento diário, nesta nossa peregrinação rumo ao Reino das Bem-aventuranças.
A Primeira Leitura, retirada do profeta Isaías 55,1-3, traz o convite do Senhor Deus para o banquete messiânico, oferecido aos que não têm dinheiro para comprar. Essa Leitura faz-nos, ainda, entender melhor o sentido da Multiplicação dos Pães segundo o Evangelho hodierno (cf. Mt 14,13-21). Isaías apresenta o convite para o banquete messiânico. Is 55 é a conclusão do “Segundo Isaías”- as profecias da escola de Isaías durante o Exílio Babilônico. O povo no Exílio é representado como faminto e sedento – as carências daquele outro exílio, o êxodo do Egito, ao qual o Exílio muitas vezes é assemelhado. Mas é fome e sede do Deus vivo e próximo – falta-lhes o Templo. Estão no perigo de se contentar com um sucedâneo: os deuses da Babilônia. Mas nenhum ídolo, pago com ouro ou prata, pode aliviar a sede do Deus vivo.


Irmãos Caríssimos,

Chegamos hoje no centro do “discurso eclesial” pronunciado por Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre reparte o pão entre os seus. Essa seria uma missão fundamental da Santa Igreja Católica, como tão bem vem demonstrada a ação evangelizadora da Igreja no Brasil, desde que lançou o Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome, inspirando-nos permanentemente a repartir o pão nosso de cada dia, particularmente, entre os excluídos da sociedade individualista dos dias atuais.
O pão e a carne eram os alimentos comuns do povo e da região de Jesus. Eram o nosso arroz com feijão, feito de tantas maneiras e com tanto carinho pelas mães e cozinheiras deste abençoado País.
Naquele tempo, a maioria do povo comia pão de cevada. O pão de trigo era luxo. Os pães eram grandes, achatados e quase sempre com um buraco ao centro, que permitia pendurá-los em varas, como se penduram, no Sul do Brasil, as roscas de polvilho.
Ao escolher o pão como matéria do sacramental central do Novo Testamento, Jesus escolheu o alimento mais comum e encontradiço entre o povo. Mas também o alimento mais rico de significados sociais e espirituais. “Comer o pão com alguém” significava fazer com ele uma aliança. Daí a exclamação de um convidado a um banquete, numa parábola de Jesus: “Feliz aquele que come o pão no Reino de Deus”, isto é, feliz aquele que participa da aliança com Deus, da amizade, da intimidade de Deus!
Antes da última Ceia, Jesus se dissera o “pão descido do céu”, o “pão da vida” e ensinara a seus Apóstolos a pedir o pão a Deus, isto é, pedir-lhe o sustento do corpo e do espírito, pedir-lhe a amizade e a presença benfazeja.
Ao meditarmos a Multiplicação dos Pães podemos concluí-lo, também, como uma prefiguração da Santa Eucaristia. Foi um milagre estupendo multiplicar cinco pães e dois peixes de tal forma que fossem alimentados mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, narra-nos o Evangelista. Jesus o fez por misericórdia; teve pena daquele povo que viera de longe para ouvi-Lo.
A instituição da Sagrada Eucaristia também foi por misericórdia. “Eis que estarei convosco todos os dias, até a consumação dos tempos” (cf. Mt 28,20). Sim, alimentando a todos que o seguem, que o ouvem, presente no Sacramento do Altar, no Sacramento de Amor, renovando sua imolação para resgatar-nos dos grilhões do pecado. Isso para, como nos ensina o Doutor Angélico, por meio de Seu corpo glorioso, de Seu sangue adorável, unidos à Sua alma e divindade, prepararmo-nos para o banquete mais augusto e mais substancial que jamais houve.
É o Divino Amigo que nos assegura que “se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (cf. Jo 6,53). É Nosso Senhor, ainda, quem teria dito a Santo Agostinho: “Quando me recebes, não és tu que me mudas e me fazer viver por ti, mas sou eu que te mudo e te faço viver por mim”.
Na Segunda Leitura de hoje, Romanos 8, 35.37-39, a exposição sobre a salvação pela graça de Deus e a fé em Jesus Cristo é evidenciada e compreendemos bem essa manifestação ao Santo Bispo de Hipona. Paulo, o apóstolo das gentes, termina sua exposição com uma efusiva proclamação de fé e confiança na obra de Deus em Jesus Cristo. “Se Deus é conosco quem será contra nós? Quem nos condenará? Quem nos separará do amor de Cristo?” Nada nos pode separar do amor de Cristo. Todos precisamos de redenção, diz São Paulo, e ela nos é dada em Cristo, que nos introduz na vida do Espírito. Ao fim desta secção, seu pensamento se torna efusivo, proclamando a certeza de vencer os poderes que poderiam desfazer a obra; não o poderão! Esta certeza não vem de raciocínios ou provas escriturísticas; ela é a convicção de quem já a experimenta. A experiência da fé é mais forte que o que se costuma chamar a realidade.
A liturgia de hoje nos convida a ler no sinal do pão uma revelação da compaixão, do terno amor de Deus para conosco, que se revelou piedosamente no dom de seu Filho, do qual o pão também se tornou o sinal sacramental.
Padre Luís Brochain, um dos discípulos de Santo Afonso de Ligório, atenta-nos que, na Eucaristia, “Jesus nos comunica então a sua própria vida; o seu espírito transfunde-se em nós e nos dirige em todos os caminhos; a sua imaginativa cura a nossa da sua dissipação habitual ao recolhimento; a sua santa vontade enobrece os nossos sentimentos, purifica os nossos afetos e eleva os nossos desejos acima do mundo criado; ajuda-nos a fugir das menores infidelidades e a nos exercer em todas as virtudes”.
Num arroubo de contemplação, São Ruperto nos diz que, desta forma, pela Eucaristia, “nós nos tornamos pela graça o que Jesus é pela natureza, isto é, santos e agradáveis a Deus”. Conscientizemo-nos disso, então, e procuremos nossa santificação por meio da prática dos sacramentos, principalmente participando com freqüência, devidamente preparados, da Sagrada Comunhão. Desta forma, além de nos unirmos intimamente com Jesus, seremos também como frascos de fragrância que esparzir o olor das virtudes, com nossa conduta, em nossa convivência familiar, na comunidade, no trabalho, como lídimos cristãos. Assim, estaremos partilhando o Pão da Palavra, orientados e alimentados pelos Evangelhos, indicando o caminho do Pão Eucarístico a tantos que se encontram desnorteados neste mundo de tantas opções, de muitos atrativos, de inúmeras seduções...

Caros irmãos,

A participação no pão da vida se manifesta traduzindo-se necessariamente na vontade firme de tentar tudo a fim de que os famintos sejam saciados, os que têm sede possam beber, os que estão nus possam vestir-se. A participação na ceia eucarística se torna, para o cristão, fonte de um esforço de promoção humana no qual todos e cada um sejam reconhecidos em sua dignidade fundamental de pessoas, no sentido de uma só grande família.

Irmãos,

Que todos nós saibamos partilhar o pão, como partilhamos a nossa fé, que é comunitária. Absolutamente nada impede que Deus nos ame, a não ser que nós também não amemos. Amor é partilha. Partilha é acolhimento, é estar com, é fazer refeição com o irmão.
Que este imenso país continental, tão rico de comida, mas tão pobre de partilha, seja evangelizado para que o pobre tenha comida e, mais do que comida, dignidade, para que todos aprendam a repartir os dons e os bens, a exemplo de Jesus que todos os dias é oferecido em favor de nossas vidas e de nossa salvação.

Padre Wagner Augusto Portugal
 

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